quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O destino da folha

Fiz desta folha página de um diário que nunca tive, pela urgência que tenho de compor o que está confusamente grafado dentro de mim.

De um repente não tão repentino, essa mera folha branca, há muito tempo esquecida na gaveta, tomou proporções que nem eu nem ela podíamos imaginar.

Semelhanças...

Era apenas uma folha de papel.

Dona de uma beleza modesta, sem grandes adornos. Tiras coloridas nas laterais, furinhos simétricos, marca da fábrica, 30 linhas pretas corriqueiras envoltas por uma fina moldura.
Era assim: Como outra qualquer. Verdadeiramente idêntica às suas 99 companheiras de bloco, que tiveram destinos diversos> Bombardeadas por ideogramas, emprestadas a amigos, dobradura, rascunho, e outras funções em que a folha em si não tem grande importância.


Folhas comuns, possuidoras da mais completa monotonia.

Esqueçamos das suas semelhantes e tratems desta.

Primeiro honrei com um "a" a segunda linha da folha. Por esse ato sem esforços já elevei a folhinha ao status de página. Não pretendo numerar, seria ostentação.

Depois o tema se despejou lentamente sobre as linhas, de forma desorganizada, e agredi então algumas delas com a branquidão da minha borracha. Continuo com a lapiseira.

O começo foi assim. Deu-se com tal naturalidade que me restam 5 linhas pra eu ter que virar a página, e a folha que antes só era folha é agora a base de um texto concreto, pensado, e futuramente trabalhado.

Sem que eu quisesse, deixaste de ser uma qualquer e te escreveste importante.

Mas por que motivo seria de outra maneira,já que tantas outras coisas na existência humana se dá do mesmo jeito?

A embalagem vazia de tic tac de cereja. Milhares de caixinhas iguais, mas a que eu possuía era única. Ele me dera, logo antes do primeiro beijo. Lembranças outrora guardadas e agora já em processo de esquecimento.

A sainha branca, tão ordinária, mas que por servir-me agora, depois de longos anos de espera e sofrimento, valem o mais exclusivo Chanel.
Você.


Claro que eu chegaria a você. Minha lapiseira já se posiciona propensa a te metaforar ou desfigurar. Aguarda meus engenhos.
Corpo entre muitos outros. Olhos comuns, cabelos transfigurados pela situação. Um bicho qualquer.


Mas veio o escancarar do teu sorriso me derrubar. Caí querendo. E o afago desapercebido nas mãos: beijos. Entrei

Entrei porque você, pedindo que eu não quisesse, fez-me entrar. De teimosia teria ficado, mas o issoaqui apagou a teimosia e fez-se imperador de mim, que sou teu reino.

Uma folha de papel, leito de confissão.

Teu sorriso branco, minha perdição.



(novembro de 2008)

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