quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Depoimento de um pequeno drama pessoal

Aconteceu numa noite chuvosa de inverno.
O dia todo tinha sido coberto pelo cinza, a combinar com o humor do homem que me amava.
Era meu último dia em Budapeste, e o último nos braços do húngaro que tinha dedicado sua vida a me agradar durante todo o tempo que estivemos juntos.
A certeza de nunca mais acordar ao meu lado tinha feito daquela manhã a mais insuportável em que ele já tivera que acordar, mas ele sabia que ainda assim, aquela manhã chuvosa e fria - a do seu último dia comigo - seria ainda menos terrível do que as que se seguiriam.
Minha urgência de voltar ao calor dos abraços do meu país me fez antecipar meu retorno. Minha estadia na Hungria passou a não fazer sentido. O sentimento se extinguira, a rotina monótona me entediou e os maus tratos e a certeza de não ser bem vinda dada pela minha ex sogra me fizeram querer estar com minha mãe. Minha normal, feliz e amada mãe.
A notícia da minha decisão de voltar com um mês de antecedência causou naquele coração de amante incondicional uma fúria silenciosa. Ele disse entender, disse concordar, acatou. Como sempre, acatou minha decisão, pois sabia que não me convenceria do contrário. O único argumento que ele poderia usar - o amor- já não tinha valor algum pra mim.
E então veio a notícia que agravou sua tristeza: Minha amiga chegaria a Budapeste.
Não qualquer amiga. Uma grande amiga entre as amigas. Maridinha.
O entusiasmo que ela trazia nas malas com a saudades que se sente de quem se quer bem foi de encontro ao meu entusiasmo de reencontrá-la. Como eu precisava de um abraço amigo, brasileiro, sincero, em portugês! No instante em que nos encontramos, ela percebeu que meus olhos -com herpes, fruto do meu stress emocional- necessitavam sua presença.
Fomos, eu e ele, buscá-la na estação de trem. Depois do longo abraço carinhoso, apresentei a grande amiga a uma pessoa que eu não conhecia. Um imbecil, grosseiro, estúpido e mal educado vestido no terno do meu ex namorado.
Senti ela não o ter conhecido enquanto ele esteve no Brasil. Toda sua normalidade e alegria teriam sido relembradas naquele encontro, e talvez eu não tivesse o odiado tanto naquele momento.

- Desculpe pelos modos dele. Ele está de mau humor.

Tínhamos brigado logo pela manhã. Tudo para ele era motivo de discussão, e eu, exausta e farta de tanto discutir, resolvi calar-me. Falava firme e calmamente que não iria brigar com ele novamente, e isso pareceu lhe tirar do sério.
Eu dedicaria meu último dia em Budapeste à minha amiga. Ele foi trabalhar e fomos, eu e ela, passear pela cidade, e levar suas malas ao apartamento que ele gentilmente tinha conseguido com um amigo para hospedá-la.
Então contei a ela que aquele era meu último dia em território húngaro. Expliquei meus motivos que ela desconhecia e me vi, então, numa posição em que jamais pensei ocupar.
A quem deveria eu dedicar minhas últimas horas em Budapeste? À amiga boa e de longa data, ou ao namorado, que já era ex, e quem eu nunca mais veria a partir da manhã seguinte?
Ela respondeu com firmeza:
- Você tem que ficar comigo, maridinha. Ele já era mesmo.

Mas eu sabia que não podia ser assim. Aquela situação me incomodava. Não gostava da idéia de magoá-lo, e sabia da importância que eu tinha pra ele, e não neguei a ela a importância que ele tinha pra mim, apesar de tudo.
Seu trabalho acabou sendo uma solução momentânea para meus problemas, pois enquanto ele estava no escritório, pude passar um tempo com ela, que me contou algumas aventuras de seu mochilão pela Europa, e a quem pude contar todo o desfecho do meu desamor.
Quando a noite veio e as obrigações profissionais se foram, voltou ao humor daquele homem tudo de ruim que pela manhã lhe rondava. A presença da minha amiga era um pesadelo que se tornara realidade, pois lhe impossibilitava de passar comigo as últimas horas da maneira que ele tinha planejado: Final de tarde no Bastião dos Pescadores, meu lugar preferido de Buda, e um jantar romântico num restaurante de comida húngara. Tudo por água abaixo.
Ele tinha conhecimento, mesmo sem eu comentar, do seu mau comportamento para com minha amiga, e prometera mudar quando a reencontrasse. Mas algo o impossibilitava.
As risadas que eu dava com ela e a atenção que eu direcionava a ela eram pra ele sempre maior do que o que eu direcionava a ele.
Ficamos por algumas horas envoltos na má companhia um do outro, e o clima que dominava qualquer ambiente a que íamos era tenso, cinza, amargo.
A presença de um amigo dele e de ervas não medicinais pareceram aliviar a tensão. Mesmo que só os outros dois tenham feito uso do que teria sido bom para mim e para ele, todo o apartamento ficou repleto de risadas e alegria.
Mas nos fomos.
Ao entrar no carro toda a insatisfação que ele guardava me foi jogada através de palavras de tristeza. Eu pedia desculpas por saber da minha precipitação em voltar, e expliquei ter resolvido minha questão da única maneira que achei possível: Dedicar o tempo à minha amiga enquanto ele trabalhava, e dedicar a noite a ele.
No entanto, aquela noite estava infernal. Sua infelicidade com a minha partida e a angústia de não poder me ter durante todo o dia lhe deram um aspecto sombrio.
Ele discutia comigo enquanto dirigia à margem do Danúbio, em Peste, e eu ouvia, argumentando a meu favor e reconhecendo meus erros - coisa que aprendi com ele.
Mas num repente tudo mudou.
Bruscamente, ele parou o carro na avenida.Tudo que ouvi foi o barulho do ABS e das garrafas que eu havia comprado pra trazer pro Brasil caírem no chão do carro. Olhei pra ele assustada, e ao meu redor, tentando entender o que havia causado aquela parada repentina.
Ao mirar seus olhos novamente, vi a fúria que não mais silenciava. E junto àqueles olhos vermelhos de raiva que eu jamais conhecera, ouvi as palavras que eu nunca- NUNCA- pensei ouvir daquela boca:
- Desce do carro! Desce do carro agora, sua vadia! Você é uma vadia!
Obviamente ele falou em inglês, mas a frase em português traduz exatamente o que ele falou e eu ouvi.
Num segundo que demorou tempo demais, tudo que saiu de mim depois da respiração apreendida foi um choro desesperado. Senti meus olhos se arregalarem olhando aquela pessoa que eu desconhecia. Num turbilhão de pensamentos cogitei qual deveria ser minha reação. Minha vontade, obviamente, era descer do carro e nunca mais olhar naquela cara branquela novamente. Mas eu não podia fazer isso.
"Sensatez, Julia. Sensatez." Foi tudo o que pensei enquanto respirava lentamente pelo diafragma.
Eu não podia descer do carro àquela hora da noite, sem um centavo de forint na carteira, debaixo da Ponte Elizabete e sem guarda-chuva!
Eu não podia simplesmente não olhar mais na cara dele, pelo simples fato de todos meus documentos e minhas malas semi-prontas estarem na casa dele, e eu, sem chaves.
Tentei respirar pra me acalmar, mas eu chorava como um bebê saído do ventre quente da mãe, e não conseguia parar de olhar nos olhos dele, numa tentativa de enxergar os motivos daquilo tudo. Tudo isso durou menos de dez segundos.
Então ele disse:
- Se você não gosta de mim, então por que está aqui? Por que você veio? O que está fazendo ao meu lado?

Eu não entendia a origem daquelas palavras magoadas, e tudo o que pude fazer, perdendo minha postura, foi gritar desesperadamente as palavras que eu tentava falar devagar para que ele entendesse direitinho:
- EU NUNCA FALEI QUE NÃO GOSTO DE VOCÊ!!!! POR QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO ISSO???? EU NÃO FALEI NADA DISSO!!!!! VOCÊ SABE QUE EU GOSTO DE FICAR COM VOCÊ!

Ele calou.
Aquelas palavras desarmaram todo o ódio que ele sentia de mim. Ele se deu conta de que tinha entedido mal a frase que eu tinha dito antes e que causou aquele surto. Naquele momento ele lamentou muito por seu inglês não ser melhor.
Eu nunca dissera que não gostava dele. Eu não mentiria para atingí-lo. Eu nunca quis magoá-lo. Nunca suportei a idéia de ferí-lo.
Depois de eu ter, aos prantos, esclarecido o que eu havia dito antes, ele voltou a dirigir, devagar, e pôs-se a pedir desculpa e se explicar, pedindo meu perdão.
Ele disse que pensou ter ouvido a frase que mais machucou seu coração. Não ter meu bem querer era uma idéia cruel demais para ele.
Eu não queria ouvir desculpas. Eu não queria ouvir a voz dele, e recusava seu toque na minha mão a toda tentativa que ele investia para me amparar.
Quando ele encostou o carro perto de Boráros Tér, quis descer do carro. Eu sabia onde estava e como chegar em casa, e não queria ficar perto dele. Andaria no trem suburbano sem pagar, eu só queria ficar longe dele.
Soltei o cinto de segurança e abri a porta do carro. Ele me segurou pela mão, me implorando pra ficar.
A voz de arrependimento que ele carregava não me abalava. Com gestos, mandei ele não encostar em mim. Ele pediu pra eu não ir de trem, para ir com ele de carro, pois queria se explicar e pedir meu perdão.
Não sei se tomaria novamente a decisão que tomei, mas fui com ele.
Então começou aquela ladainha de explicação. Eu já havia compreendido o mal-entendido, e já estava farta de escutar suas desculpas. Ele disse que antes de brecar o carro tinha visto se não vinha nenhum carro atrás, que jamais levantaria a mão para mim, e que não acreditava de verdade que eu era uma vadia.
Aquela palavra, que eu jamais pensei sair da boca dele direcionada a mim, carregou consigo toda a mágoa que ele vinha guardando durante o tempo que passamos juntos.
Aquelas cinco letras me insultaram de tudo que ele fazia eu me sentir, mesmo sem falar.
Senti-me fraca, traidora, inconstante, superficial, louca, mimada, puta.
Tudo isso estava no conjunto da cólera em seus olhos e daquela palavra, e não havia pedido de desculpa que pudesse apagar o que eu ouvi.
Ele sempre pensou que o pedido de desculpas funcionava como uma borracha na memória. Eu já lhe havia dito infinitas vezes no passado que seus pedidos de desculpas já tinham perdido o valor, de tanto que ele as usava. Naquele dia eles não tiveram valor nenhum.
Durante todo o caminho de volta pra casa ele falou arrependido, explicou-se infinitamente, e além de desculpas, pedia para que eu não o odiasse aquela noite. Era nossa última noite, e ele queria ficar de bem comigo.
Eu não soltei uma palavra se quer. Tudo o que saía de mim eram soluços e lágrimas. Meus olhos olhavam o vazio.
Eu estava verdadeiramente chocada com aquele pequeno drama. De todas as pessoas que eu já conheci na vida, ele era a última em quem eu pensaria que fosse capaz de ter uma reação destas.

A máscara caiu. Foi a primeira coisa em que pensei naquele tumulto.
Quem é esse homem?

Ao estacionar o carro em frente ao bloco de prédios cinzentos e pixados da era socialista, típico dos subúrbios de Budapeste e condizentes com toda aquela cena, desci do carro e entrei no prédio. Ele demorou a vir e eu, mesmo enfurecida e amedrontada, esperei-o chegar, segurando a porta de entrada.
Ele agradeceu, comovido com minha boa educação mesmo em um momento como aquele.
Entrei no apartamento e a última coisa que queria ver era a infeliz mãe que ele tinha. Já tinha passado das 11 da noite, e ela costumava dormir às 9. Para completar minha má maré, dei de cara com ela saindo do banheiro, disse "Szia" olhando pro chão, e entrei no nosso quarto.
Com pressa, pus-me a terminar de fazer minhas malas, e estava decidida a pegar um táxi para ir ao aeroporto naquela noite mesmo. Eu não queria ficar na companhia dele até a manhã seguinte. Meu vôo só saía depois do almoço.
Ele entrou no quarto e não tinha mais o que falar, mas, ainda assim, falava, e pedia perdão, e se explicava.
Eu já tinha entendido toda a situação, e, dentro de mim, já estava convencida de que não tinha caído máscara alguma. Ele vestira naquele terrível instante uma máscara cruel para se proteger do que ele pensou que fosse ataque meu em seus sentimentos.
Eu o conhecia suficientemente bem para saber tudo aquilo, e dentro de mim, sabia que eu o ia perdoar. Mas agora queria fazê-lo sofrer.
Como se educa uma criança, queria fazê-lo perceber que comigo não funciona fazer besteiras e simplesmente pedir desculpas depois de tudo. Eu o desculparia, mas ele teria que sentir um tanto de remorso, seu castigo.
Da minha boca não saía palavra alguma. Ele pediu para que eu falasse, e eu neguei com a cabeça. Pediu, então, que eu o respondesse com a cabeça as perguntas que ele fazia, e assim o fiz.
Abri minha boca para pedir que me devolvesse os livros de português para estrangeiro que eu lhe havia emprestado quando estava no Brasil.
Ele foi buscá-los no outro quarto, e voltou com os olhos baixos e rasos d´água.
Entregando-me sem que eu o fitasse os olhos, disse:
- Eu esperava que você os deixasse comigo, se continuássemos juntos. Mas agora não suporto a idéia de tê-los. Leve-os, eu não os conseguirei abrir.

E caiu num pranto desesperado e profundo. Eu o abracei para lhe confortar. Eu não suporto a idéia de ver homens chorando, e percebi que aquele era o momento de eu ceder e perdoá-lo.
Abracei-o forte e choramos juntos o choro mais triste que eu jamais chorei. As lágrimas eram de abandono, de culpa, de remorso, de despedida e de desamor.

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