quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O sexo selvagem pode levar à interrupção constrangedora de uma transa

Contava eu nove anos.

Morava num sobrado, numa viela na zona sul de São Paulo.

A casa tinha três quartos no andar superior. O da minha irmã mais velha dava pra ruazinha estreita, com vista pras casas coloridas geminadas do outro lado da rua. Em direção ao quintal dos fundos, passando as escadas de madeira, ficava o maior quarto, que eu dividia com minha irmã caçula. No final do corredor encarpetado que não era muito longo, dormiam meus pais.

Não me lembro bem a noite nem a estação do ano em que isso se passou, mas certamente era uma noite fria.

Quando criança, toda noite antes de dormir, me enfiava debaixo dos lençóis e erguia os braços, fazendo cara de dó, e com um tom mais infantil que minha verdadeira idade, pedia manhosa:

"Mamãe, vem me cobrir"

E minha impecável e paciente mãe me cobria, me envolvia em um abraço quente, e nos contava uma estória para dormimos com imagens de reinos e florestas e animais e amores.

Vez ou outra, se no meio da noite meu sono agitado me descobria, sem culpa nenhuma, gritava:

"Mamãe, estou com frio!".

Embora vez ou outra demorasse, ela vinha amavelmente me cobrir, e eu segurava sua mão, porque queria não só o acalanto no corpo, como na minha alma carente infantil. Ela, então, deitava-se a meu lado, e pedia pra eu cantar uma canção, e minha voz embalava seu sono interrompido.

Mas numa noite, meus pés gelados tiveram que ser cobertos por minhas mãos, e minha alma carente abriu espaço a dúvida e curiosidade.

Ao sentir meus pés gelados, quis gritar "mamãe", mas os ruidos que ouvi me fizeram calar.

Atentei meus ouvidos, e todo som que eu ouvia era de dor. Um som inconstante, de volume alternante. Abri meus olhos no escuro como querendo enxergar o que vinha do quarto do fim do corredor.

Ouvia a voz de minha mãe gritar de dor, e me levantei da cama.
"O que meu pai está fazendo com ela?", pensei.


Sentada na cama, por minutos pensei o que poderia estar acontecendo. Nada me parecia convincente o suficiente.
"Será que ele está batendo nela?"


Mas nunca antes ouvira os dois brigarem, e menos ainda testemunhara qualquer insinuação de agressão fisica por parte do meu pai, homem bonissimo.

Tomei coragem e enfrentei o escuro corredor. Parei em frente à porta creme, e meus ouvidos procuravam provas sonoplásticas de agressão fisica, e, uma vez obtidas, eu bravamente abriria a porta do quarto e salvaria minha mãe vitimizada.
Não houve prova alguma, e os gemidos não me soavam como aqueles que expomos quando temos dor de barriga. Me restou recuar, contrariada.
Voltei à minha cama já fria e enquanto procurava o teto no escuro, veio-me a resposta:

...

"Será? Não... Meu pai não faria isso com ela! Por que ele faria isso com ela? O que ela fez pra ele?"

E foi essa a primeira idéia de sexo que eu tive na minha cabeça de criança.




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