-Estou sofrendo.
- Entra e senta. Quer um copo d'água?
Um fim de tarde de domingo é propício a desabafos. Se a chuva chora além da vidraça, tudo parece muito natural.
-Estou te atrapalhando?
- Não, acabei de almoçar. Só tenho que arrumar umas coisinhas aqui em casa.
-Quer ajuda?
-Eu não, mas você quer. Conta o que aconteceu.
E Cecília dedicou longos minutos e enérgicas palavras para contar àquela amiga o que lhe doía o coração.
-Você quer chocolates?
-Ai, eu estou precisando de chocolate!
Em 95% dos casos, os desabafos de uma amiga a outra se trata de "problemas" com homens. Em 99% deles, o primeiro consolo da mulher é uma caixa de bombons.
Os problemas podem ser reais ou não, duradouros ou curtos, mas são sempre - sempre- muito graves.
Maria sempre ouve. Maria dá conselhos. Maria sabe como lidar com amigas sofredoras.
Ao cabo de meia hora de lamentos, xingamentos e prelúdios de lágrimas, Cecília se calou.
Maria, em seus vinte e poucos anos, adquiriu desde o início da adolescência experiência com relacionamentos. Foi de poucos: Algumas paixões, grandes e menores desilusões, um único namoro já terminado, mas muita observação e ouvidos cheios de lamentos alheios.
Quando não se tem experiência com homens, todo silêncio parece ser o fim do mundo. O caso é que os problemas, em quase todas as vezes, são bem menores que o olhar feminino se permite enxergar.
As hiperbólicas mulheres adoram queixar-se de homens com as amigas, com o cachorro, com o vento. E queixam-se enchendo a boca, donas da razão, como toda mulher que se preze.
- Acabe de beber a água e vá até a cozinha. Vou terminar de lavar a louça.
E enquanto passava a esponja em movimentos circulares para ensaboar o único prato sujo, pensava como continuaria a conversa com Cecília. Ao ouvir seus passos entrando na cozinha:
- Deixe o chocolate em cima da mesa. Ele não está te fazendo sofrer.
-Como não, Maria???? (E enfiou mais um bombom na boca) Você não ouviu o que eu acabei de te contar?!
-Ouvi, e é por isso que digo: O Lucas não está te fazendo sofrer.
- Mas eu estou sofrendo, Maria! Tá doendo muito!
-Ah, nisso eu acredito. Acredito que esteja doendo.
- O que ele fez foi errado, não foi? Ele não tinha o direito de fazer isso comigo. Eu não entendo por que ele faz isso comigo. Ele sabe que me machuca. Ele diz que se importa, mas então por que ele me faz sofrer?
-Ele não te faz sofrer.
-Mas estou sofrendo.
-Sofre porque quer.
-Eu quero?!?! Você acha que eu gosto de sofrer?! Que eu gosto de chorar a toda vez que penso nele?! Que gosto de ser ignorada por ele?
- Acho, sim. Se você não gostasse, não entraria a toda hora no orkut dele pra procurar fotos e fatos que comprovam o que você quer acreditar que não está acontecendo.
E Cecília franziu a testa como chupasse limão.
-E se não gostasse de sofrer, não ficaria ligando pra ele incessantemente, sem obter resposta.
-Mas ele pediu pra eu ligar...
-Se ele quisesse falar contigo, atenderia uma das vinte ligações que você fez.
-Mas e se o celular dele estiver com problema? Ele vai pensar que eu não liguei!
E Maria valeu-se de indelicadeza pra convencer a tristonha Ceci:
-Se ele quisesse falar contigo, te ligaria. Pára de ser besta.
E os olhos verdes de Cecília se apagaram e miraram o chão.
As mulheres escondem a razão por detrás da esperança quando têm o coracão ferido.
- O que eu faço?
- Espera a dor ir embora.
-Não consigo! Essa dor não me deixa nunca.
-A dor é dor. Pode vir de fora, mas passa. A dor curtida é sofrimento. A dor dói em quem sente. Só sofre quem quer.
E Maria embalou Cecília em um abraço forte. Esta, em lágrimas, mastigava outro bombom.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
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