Numa tarde como outra qualquer em que se pode sorrir, numa praia propícia, a brisa veio.
Não anunciara sua chegada, e veio obviamente em momento impróprio.
mas quem não gostaria de aparecer naquele fim de tarde ensolarada e fresca, freqüentada por cerveja e bons bebedores, que ao copo tornam?
Lá se encontraram.
A brisa, á espera, quietinha, pairando sobre o mar. E ela mas mulher que eu, menina-moça.
De menina há algum vestígio de inocência e certa pureza dominada pelo pudor, que brilham no sorriso solto. De moça, o caminhar, vivência em campos distantes e com pessoas improváveis, além do gosto pelas letras, fonte imensa de prazer.
Também é de moça o andar: brasileiro, despreocupado.
Menina ou moça, queria ser livre.
Da boca, além de beijos eventuais e elogios inesperados, saem palavras. Os lábios odeiam marasmo. Muitas palavras. Palavras, sempre que conscientes, propositais, traços da moça.
O mar lá estava. Claro, o mar!
Sol e cerveja na cabeça, boa companhia e o mar em sua imensidão, aguardando a manifestação da brisa e a chegada das ondas.
Só queria ser ela. Sem amarra, sem limite, sem pudor.
Sem pudor, sim, senhor!
Mae era fim de tarde, e ela era limitada.
Não pelo tempo previsto, que tão vulnerável foi à sua ação. Pelo lugar?
Talvez...talvez...
O inferno são os outros.
Os belos olhos serenos a faziam companhia. Não confundo! Se a metonímia assusta, entenda como elogio, e se encabular, direcione-o a quem fez teus olhos. Não confunda!
Pois me exponho. Caso haja alguma dúvida, não hesito em assumir que me faz bem dar carinho. Não são as palavras carinhos? Se as não recebem como afago, as minhas são vãs.
Elogios, beijos, cafunés, palavras... São carícias minhas.
Risinhos, afagos, amigos, gostoso...
A tarde vai caindo e procuraram a brisa. E a danada veio fácil, fácil.
E veio uma onda. Chuá na cabeça, saio de mim.
Mais ou menos. Fico num mim com desejo de não sê-lo. Um mim mais ela.
Daí veio ondinha na beira do mar. Cabeça alheia, vento no rosto, sorriso fácil.
E veio onda grande, arrepio na veia. Fecho os olhos, sinto o vento e suspiro...
E surge onda maior, atrás de outra onda. E vêm crescendo, crescendo, juntando, apertando.
A brisa esquenta. Esquenta e arde. Não quero alarde, mas a onda me leva. É redemoinho quente na barriga.
Onda após onda após outra após...
Rio nas nuvens do entardecer
Gosto da cor da brisa do mar
Arrasta meu corpo pra si
Sou leve, me leve! Eu vou...
Mexendo meu sul, apago o norte
Ondas se formam em mim...
Foi um grito de liberdade. Saí de mim, saí de tudo!
Sem amarra, sem pudor, sem noção - eu sei.
Mas shhhh... Peraí... A brisa não passou
Traz mais onda! Não quero parar
Eu quero só isso, continuar assim
Sentindo o grito da liberdade explodir em mim
Antes que a brisa passe, deixa eu sentir
Outra onda.
Elas se foram e ficou meu corpo saciado, estirado na areia.
Foi bom pra mim. A melhor.
ela, inesperada, assustadora, selvagem, até, foi-se com a brisa.
Mas a onda imensa que com ela veio deixou em mim o que eu procurava sem saber.
Tenho agora a marca da liberdade plena, além da vergonha por conta do despudor explícito e indomável- perdão.
Ela se foi e com ela parte da libido. parte ainda fica em mim como resquício da onda e da brisa que me fizeram mulher.
Maio de 2008
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