sábado, 31 de janeiro de 2009

Churrasco de família

Minha família é o abraço mais protetor que eu já dei.
Os olhares surpresos com minha volta antecipada, e as perguntas curiosas pra saber o motivo antes acalantam do que incomodam.
Conto, conto tudo.
Assumo que a distância atrapalhou, que o amor acabou, que a sogra irritou.
Conto do tédio, das saudades, da saúde.
Conto quase tudo.

Vovó desconfia:
-Você arranjou alguém por aqui?
- Não, vozinha, não arranjei.

Não menti. Alívio pela pergunta não ter sido outra.

E sorrisos dos primos ao me verem com a cabeça erguida, sorrindo, exuberante. Tinha saudades de sorrir desse jeito. Meu sorriso de verão, brasileiro...

- Voltou a ser solteira! Que beleza! Agora é só folia. Carnaval taí...
- Carnaval é feriado. Quero descansar. Quero curtir as amigas, a praia, o mar.

Vovó admite:
- Eu sentia que você não estava bem, filhinha. Quando você foi eu fiquei com uma dor no coração! Saudades a gente sempre sente. Mas quando você foi pra Alemanha foi diferente. Você foi com outro astral. Dessa vez você estava tão tristonha.
- É que eu sabia que tinha acabado, vó.
- Pois quer saber, foi melhor assim. Trate de arranjar um por aqui pra ficar perto da gente. Dói tanto o coração quando você viaja. Já pensou, você ir embora?
(Vó apegada...)
- E se eu arranjar um chinês?
- Deus nos livre!

Mamãe cochicha com a tia.
"ela tá bem sim... Não aguentou a sogra"

Não foi a sogra, mamãe!! A sogra até me serviu pra eu ficar 3 horas todos os dias na academia, e no fim, como gatilho pra eu pensar em voltar.

- Você tá triste?
- Eu tô bem. Foi meu primeiro rompimento, não sei se eu devia estar me sentindo pior. Não sei como essas coisas funcionam.
- Mas você chora muito?
- Não mais.

"Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta, e o coração tranqüilo."

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009


Numa tarde como outra qualquer em que se pode sorrir, numa praia propícia, a brisa veio.

Não anunciara sua chegada, e veio obviamente em momento impróprio.

mas quem não gostaria de aparecer naquele fim de tarde ensolarada e fresca, freqüentada por cerveja e bons bebedores, que ao copo tornam?

Lá se encontraram.

A brisa, á espera, quietinha, pairando sobre o mar. E ela mas mulher que eu, menina-moça.

De menina há algum vestígio de inocência e certa pureza dominada pelo pudor, que brilham no sorriso solto. De moça, o caminhar, vivência em campos distantes e com pessoas improváveis, além do gosto pelas letras, fonte imensa de prazer.

Também é de moça o andar: brasileiro, despreocupado.

Menina ou moça, queria ser livre.

Da boca, além de beijos eventuais e elogios inesperados, saem palavras. Os lábios odeiam marasmo. Muitas palavras. Palavras, sempre que conscientes, propositais, traços da moça.

O mar lá estava. Claro, o mar!

Sol e cerveja na cabeça, boa companhia e o mar em sua imensidão, aguardando a manifestação da brisa e a chegada das ondas.

Só queria ser ela. Sem amarra, sem limite, sem pudor.

Sem pudor, sim, senhor!

Mae era fim de tarde, e ela era limitada.

Não pelo tempo previsto, que tão vulnerável foi à sua ação. Pelo lugar?

Talvez...talvez...

O inferno são os outros.

Os belos olhos serenos a faziam companhia. Não confundo! Se a metonímia assusta, entenda como elogio, e se encabular, direcione-o a quem fez teus olhos. Não confunda!

Pois me exponho. Caso haja alguma dúvida, não hesito em assumir que me faz bem dar carinho. Não são as palavras carinhos? Se as não recebem como afago, as minhas são vãs.

Elogios, beijos, cafunés, palavras... São carícias minhas.

Risinhos, afagos, amigos, gostoso...

A tarde vai caindo e procuraram a brisa. E a danada veio fácil, fácil.

E veio uma onda. Chuá na cabeça, saio de mim.

Mais ou menos. Fico num mim com desejo de não sê-lo. Um mim mais ela.

Daí veio ondinha na beira do mar. Cabeça alheia, vento no rosto, sorriso fácil.

E veio onda grande, arrepio na veia. Fecho os olhos, sinto o vento e suspiro...

E surge onda maior, atrás de outra onda. E vêm crescendo, crescendo, juntando, apertando.

A brisa esquenta. Esquenta e arde. Não quero alarde, mas a onda me leva. É redemoinho quente na barriga.


Onda após onda após outra após...

Rio nas nuvens do entardecer

Gosto da cor da brisa do mar

Arrasta meu corpo pra si

Sou leve, me leve! Eu vou...

Mexendo meu sul, apago o norte

Ondas se formam em mim...


Foi um grito de liberdade. Saí de mim, saí de tudo!

Sem amarra, sem pudor, sem noção - eu sei.

Mas shhhh... Peraí... A brisa não passou


Traz mais onda! Não quero parar

Eu quero só isso, continuar assim

Sentindo o grito da liberdade explodir em mim

Antes que a brisa passe, deixa eu sentir

Outra onda.


Elas se foram e ficou meu corpo saciado, estirado na areia.

Foi bom pra mim. A melhor.

ela, inesperada, assustadora, selvagem, até, foi-se com a brisa.

Mas a onda imensa que com ela veio deixou em mim o que eu procurava sem saber.

Tenho agora a marca da liberdade plena, além da vergonha por conta do despudor explícito e indomável- perdão.

Ela se foi e com ela parte da libido. parte ainda fica em mim como resquício da onda e da brisa que me fizeram mulher.


Maio de 2008

Worried eyes- Eagle eyed cherry

I've tried so hard to remember
what it is that I forgot
But I can, but I can believe.....will you now
I've tried, I've triedI've tried
Cried and kissed goodbye
To something that we both know
Boy you blow my mind
I don't know how
I'm going to
Show you what I feel for you
All I know All I know is I...
Want to be with you
Have you ever tried to be
Have you ever tried to see
Something but you don't really know what it is
Lord but we got to try
CHORUS:
I look at you
I hear your voice
I try to remember.....
I try to remember
So don't you look at me with worried eyes
'Cause you know we got to try girl

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Sem pressa

Preciso de horas inúmeras pra realizar todas as imagens que se impuseram na minha mente durante essa semana.

Minhas mãos anseiam pelo corpo teu, ao que possam ser submissas e servir com toques suaves uma massagem muito, muito pensada. Algumas vezes já testadas -a qualquer fechar de olhos-, mas ainda não materialmente realizada.

A massagem é o começo. Começo longo e sem pressa, que prelude a intensidade que está por vir.

Meia luz, odores mornos, som de embalo, toque devoto e um suave gosto estimulante.

Depois do corpo envolto por um calor delicadamente sugerido, o beijo. Aquele mesmo beijo diferente do de antes. Concluo que os sonhos têm poder de aperfeiçoamento, pois de tanto desejar teu corpo nesse intervalo, ele ficou assim, tão você: Homem.

O beijo! Que beijo! A língua é a mesma. Os lábios continuam deliciosamente vermelhos, como sempre foram: Molhados, irresistíveis. Foram sempre. Mas o beijo não era antes assim. Fora beijinho. Beijão-beijinho. Nele só troca de saliva e movimento desnorteado de línguas. Por certo deu-se o que se deu, mesmo com eles. Se não os houvesse, também se daria. Mas com estes...(!) Dar-se-há infinitamente mais?

Teu beijo tem uma violência delicada. Um massagear dos lábios que convidam o corpo todo a participar de um encontro de toques e gostos. O prazer não se esgota com o cessar dos movimentos das línguas, mas aumenta, e molha, e pede, e suplica que não pare. E quer mais. Queromais! O tal gostinho já se dá.
Escrevo pra não ligar. Pra não ir atrás, pra não me precipitar. Se não fosses tão capricorniano, já estariam estas imagens no abrigo do meu quarto. Continuo a escrever, você não vem.
Continuo escrevendo as imagens que foram se formando fortemente depois do "até mais". Já não durmo sem orvalho no sul. As mãos no meu prazer, a cabeça no teu. Tens a força de causar o desejo indomável que não me permite negar que continuo pensando e desejando, e fantasiando. Relato por ser de gêmeos, e contra essa sufocante verdade, crio paciência.
Paramos no beijo contínuo e continuo.
Meu corpo sobre o teu. Um contato de peles bem-vindas, meus joelhos rondando seu quadril. Minhas pernas acolhem as tuas e meu rosto busca tua nuca.
Um cheiro bem teu: aspiro.
Aspiro como você aspirou o meu, como quisesse inspirar a essência de mim. A tua essência? Mistério eterno, enigma indissolúvel, atração sem fim.
Seu cheiro é tomado pela minha boca, que lambe modesta o pescoço e mordisca roçando a pele adocicada nos teus pêlos viris. Gosto daqui: da proximidade com a tua boca, do pulsar, do teu peito.
Mas algo me chama palpitante ao sul. Minhas mão se prontificam: Uma o afaga, a outra envolve a nuca e guia teu rosto inédito ao novo encontro dos lábios teus com os meus.
Dispo-te da única peça que te resta, preta. Não faço alarde. Apenas satisfaço-me com a certeza da presença real e dura de você.
Escondo minha veneração e ponho-me mulher. Dominadora submissa, pois enorme parte do prazer que é meu se dá com a comprovação do teu.
Que poder tem minha boca linda! Já aprontada pela tua, põe-se em busca de novas formas de prazer enquanto pretende transmitir todo o ardor que está sentindo. Quero frio, calor, suor, línguas e lábios incansáveis. Dou tudo. Sinto escorrer-me o prazer ao escrever- é manifestação do gosto real.
A hora não me importa. Quero ver no teu rosto o que te proporciono. Sirvo-te porque quero o teu e o meu prazer. Faço-me inteira e intensamente tua.
Dedico-me aos beijos que você me pede ofegante. Te beijo sorrindo de satisfação; Minhas mãos por você, descobrindo cada foco de prazer do teu corpo, que é de um moreno delicioso. Deixo-me envolver pelos teus braços intimidantes e você me guia. Faz o que quer, eu também quero. Quero sentir você em mim e te fazer sentir que sou tua.
Por instantes saboreio o gosto raro de sentir que você é meu. Domino seu corpo, sinto seus cheiros, recebo carícias e palavras ousadas.
Já sabes do que gosto: Do puxar agressivo dos meus cachos e concomitantes beijos suaves na testa; das palavras vulgares que excitam a você e a mim.
Ponho braços e pernas onde teu corpo me quer.
Fazemo-nos um só, mas não como os outros, pela sonhada união da alma.
Fazemo-nos um pela profunda coincidência da satisfação dos nossos dois prazeres.
Quero e mereço um dia sem pressa.

São Paulo, 06/08/2008

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando
Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando
Dá uma geral, faz um bom defumador
Enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, tá calor
Vai pegando uma cor
Que eu tô voltando
Faz um cabelo bonito pra eu notar
Que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar
Pode se preparar porque eu tô voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som
Estréia uma camisola
Eu tô voltando
Dá folga pra empregada
Manda a criançada pra casa da avó
Que eu to voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero lá, lá, lá, ia, porque eu to voltando!

César Pinheiro e Mauricio Tapajós

sábado, 24 de janeiro de 2009

tua mão

no meu seio

sim não

não sim

não é assim

que se mede

um coração

Alice Ruiz

O amor nao morre

O amor nao some

O amor nao acaba.

O amor se faz como a flor

E se desfaz como o sorriso

Assim, sem expicacao

Sem razao

Sem motivo

Um dia fui dormir com o pensamento em voce

No outro, meus sonhos eram com voce

Eu sonhava seus sonhos

Eu dormia seu sono

Eu vivia em voce

Mas passou o verao, acabou o outono, e o inverno chegou

E o inverno se foi, e veio a primavera

Foi entao que despertei e vi meu amor se desfazer

E me dei conta de que o dia amanheceu apesar de voce

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Não por acaso me lembrei dessa música.
Sempre que há roda de música lá em casa, meu pai toca essa música ao violão.

Faustina corre aqui depressa
olha quem está no portão
É minha sogra com as malas
ela vem decidida a morar no porão
Vai ser o diabo, vamos ter sururú com o vizinho
não estou pra isso, eu vou dar o fora
decididamente vou morar sozinho
É minha sogra, mas, tenha paciência
não há quem possa com essa jararaca
meu sogro foi de maca pra assistência
com o corpo todo retalhado à faca
Mas comigo é diferente; não tenho medo desta cara feia
pego a pistola: disperdiço o pente...
ela descansa e eu vou pra cadeia.

A utilidade do til




Desconsiderando as normas da gramática, reflitamos acerca da utilidade do til.


Sem dúvida, temos no nosso vasto vocabulário da língua de Camoes inúmeras palavras que sao coroadas com essa adorável minhoquinha.


Mas, de fato, precisamos dela?


Se eu escrevo "bobao", assim mesmo, sem til, dá pra compreender o significado?


Talvez nao dê, e, realmente, soa estranho. Mas simplifico: Bobinho.


Mas você há de convir que certas palavras nem precisam ser modificadas:


Paixao, tesao, babao.


Mas se fazes questÃo, lanço mÃo do copy-paste:


Ontem fiz musculaçÃo e um gostosÃo branquelo pediu permissÃo para usar o aparelho de fazer flexÃo horizontal. NÃo entendi na hora, pois o camarÃo nÃo fala outra lingua senÃo a dele, que nÃo é a nossa. Fiz cara de interrogaçÃo, levantei a mÃo e pedi que esperasse. Ele, entÃo, foi fazer flexÃo de braços no chÃo. Depois que terminei, chamei sua atençÃo e sorri, e ele entrou em açÃo.




quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O sexo selvagem pode levar à interrupção constrangedora de uma transa

Contava eu nove anos.

Morava num sobrado, numa viela na zona sul de São Paulo.

A casa tinha três quartos no andar superior. O da minha irmã mais velha dava pra ruazinha estreita, com vista pras casas coloridas geminadas do outro lado da rua. Em direção ao quintal dos fundos, passando as escadas de madeira, ficava o maior quarto, que eu dividia com minha irmã caçula. No final do corredor encarpetado que não era muito longo, dormiam meus pais.

Não me lembro bem a noite nem a estação do ano em que isso se passou, mas certamente era uma noite fria.

Quando criança, toda noite antes de dormir, me enfiava debaixo dos lençóis e erguia os braços, fazendo cara de dó, e com um tom mais infantil que minha verdadeira idade, pedia manhosa:

"Mamãe, vem me cobrir"

E minha impecável e paciente mãe me cobria, me envolvia em um abraço quente, e nos contava uma estória para dormimos com imagens de reinos e florestas e animais e amores.

Vez ou outra, se no meio da noite meu sono agitado me descobria, sem culpa nenhuma, gritava:

"Mamãe, estou com frio!".

Embora vez ou outra demorasse, ela vinha amavelmente me cobrir, e eu segurava sua mão, porque queria não só o acalanto no corpo, como na minha alma carente infantil. Ela, então, deitava-se a meu lado, e pedia pra eu cantar uma canção, e minha voz embalava seu sono interrompido.

Mas numa noite, meus pés gelados tiveram que ser cobertos por minhas mãos, e minha alma carente abriu espaço a dúvida e curiosidade.

Ao sentir meus pés gelados, quis gritar "mamãe", mas os ruidos que ouvi me fizeram calar.

Atentei meus ouvidos, e todo som que eu ouvia era de dor. Um som inconstante, de volume alternante. Abri meus olhos no escuro como querendo enxergar o que vinha do quarto do fim do corredor.

Ouvia a voz de minha mãe gritar de dor, e me levantei da cama.
"O que meu pai está fazendo com ela?", pensei.


Sentada na cama, por minutos pensei o que poderia estar acontecendo. Nada me parecia convincente o suficiente.
"Será que ele está batendo nela?"


Mas nunca antes ouvira os dois brigarem, e menos ainda testemunhara qualquer insinuação de agressão fisica por parte do meu pai, homem bonissimo.

Tomei coragem e enfrentei o escuro corredor. Parei em frente à porta creme, e meus ouvidos procuravam provas sonoplásticas de agressão fisica, e, uma vez obtidas, eu bravamente abriria a porta do quarto e salvaria minha mãe vitimizada.
Não houve prova alguma, e os gemidos não me soavam como aqueles que expomos quando temos dor de barriga. Me restou recuar, contrariada.
Voltei à minha cama já fria e enquanto procurava o teto no escuro, veio-me a resposta:

...

"Será? Não... Meu pai não faria isso com ela! Por que ele faria isso com ela? O que ela fez pra ele?"

E foi essa a primeira idéia de sexo que eu tive na minha cabeça de criança.




terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Noite de Almirante

Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) saiu ao Arsenal de Marinha e enfiou pela Rua de Bragança. Batiam três horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, demais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A corveta dele voltou de uma longa viagem de instrução, e Deolindo veio à terra tão depressa alcançou licença. Os companheiros disseram-lhe, rindo:
— Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva...
Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como eles dizem, uma dessas grandes noites de almirante que o esperava em terra. Começara a paixão três meses antes de sair a corveta. Chamava-se Genoveva, caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido. Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, ele deixaria o serviço e ela o acompanharia para a vila mais recôndita do interior.
A velha Inácia, que morava com ela, dissuadiu-os disso; Deolindo não teve remédio senão seguir em viagem de instrução. Eram oito ou dez meses de ausência. Como fiança recíproca, entenderam dever fazer um juramento de fidelidade.
— Juro por Deus que está no céu. E você?
— Eu também.
— Diz direito.
— Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.
Estava celebrado o contrato. Não havia descrer da sinceridade de ambos; ela chorava doidamente, ele mordia o beiço para dissimular. Afinal separaram-se, Genoveva foi ver sair a corveta e voltou para casa com um tal aperto no coração que parecia que “lhe ia dar uma coisa”. Não lhe deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas, os meses, dez meses, ao cabo dos quais a corveta tornou e Deolindo com ela.
Lá vai ele agora, pela Rua de Bragança, Prainha e Saúde, até ao princípio da Gamboa, onde mora Genoveva. A casa é uma rotulazinha escura, portal rachado do sol, passando o Cemitério dos Ingleses; lá deve estar Genoveva, debruçada à janela, esperando por ele. Deolindo prepara uma palavra que lhe diga. Já formulou esta: “Jurei e cumpri”, mas procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse mundo de Cristo, italianas, marselhesas ou turcas, muitas delas bonitas, ou que lhe pareciam tais. Concorda que nem todas seriam para os beiços dele, mas algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. Só pensava em Genoveva. A mesma casinha dela, tão pequenina, e a mobília de pé quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava diante dos palácios de outras terras. Foi à custa de muita economia que comprou em Trieste um par de brincos, que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E ela que lhe guardaria? Pode ser que um lenço marcado com o nome dele e uma âncora na ponta, porque ela sabia marcar muito bem. Nisto chegou à Gamboa, passou o cemitério e deu com a casa fechada. Bateu, falou-lhe uma voz conhecida, a da velha Inácia, que veio abrir-lhe a porta com grandes exclamações de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por Genoveva.
— Não me fale nessa maluca, arremeteu a velha. Estou bem satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse. Estava agora como o lindo amor.
— Mas que foi? que foi?
A velha disse-lhe que descansasse, que não era nada, uma dessas coisas que aparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a cabeça virada...
— Mas virada por quê?
— Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo, mascate de fazendas? Está com ele. Não imagina a paixão que eles têm um pelo outro. Ela então anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. José Diogo não me saía da porta; eram conversas e mais conversas, até que eu um dia disse que não queria a minha casa difamada. Ah! meu pai do céu! foi um dia de juízo. Genoveva investiu para mim com uns olhos deste tamanho, dizendo que nunca difamou ninguém e não precisava de esmolas. Que esmolas, Genoveva? O que digo é que não quero esses cochichos à porta, desde as ave-marias... Dois dias depois estava mudada e brigada comigo.
— Onde mora ela?
— Na Praia Formosa, antes de chegar à pedreira, uma rótula pintada de novo.
Deolindo não quis ouvir mais nada. A velha Inácia, um tanto arrependida, ainda lhe deu avisos de prudência, mas ele não os escutou e foi andando. Deixo de notar o que pensou em todo o caminho; não pensou nada. As idéias marinhavam-lhe no cérebro, como em hora de temporal, no meio de uma confusão de ventos e apitos. Entre elas rutilou a faca de bordo, ensangüentada e vingadora. Tinha passado a Gamboa, o Saco do Alferes, entrara na Praia Formosa. Não sabia o número da casa, mas era perto da pedreira, pintada de novo, e com auxílio da vizinhança poderia achá-la. Não contou com o acaso que pegou de Genoveva e fê-la sentar à janela, cosendo, no momento em que Deolindo ia passando. Ele conheceu-a e parou; ela, vendo o vulto de um homem, levantou os olhos e deu com o marujo.
— Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu Deolindo.
E, levantando-se, abriu a rótula e fê-lo entrar. Qualquer outro homem ficaria alvoroçado de esperanças, tão francas eram as maneiras da rapariga; podia ser que a velha se enganasse ou mentisse; podia ser mesmo que a cantiga do mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou pela cabeça, sem a forma precisa de raciocínio ou da reflexão, mas em tumulto e rápido. Genoveva deixou a porta aberta; fê-lo sentar-se, pediu-lhe notícias da viagem e achou-o mais gordo; nenhuma comoção nem intimidade. Deolindo perdeu a última esperança. Em falta de faca, bastavam-lhe as mãos para estrangular Genoveva, que era um pedacinho de gente, e durante os primeiros minutos não pensou em outra coisa.
— Sei tudo, disse ele.
— Quem lhe contou?
Deolindo levantou os ombros.
— Fosse quem fosse, tornou ela, disseram-lhe que eu gostava muito de um moço?
— Disseram.
— Disseram a verdade.
Deolindo chegou a ter um ímpeto; ela fê-lo parar só com a ação dos olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a porta, é porque contava que era homem de juízo. Contou-lhe então tudo, as saudades que curtira, as propostas do mascate, as suas recusas, até que um dia, sem saber como, amanhecera gostando dele.
— Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Inácia que lhe diga se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe tudo isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo.
Não sorria de escárnio. A expressão das palavras é que era uma mescla de candura e cinismo, de insolência e simplicidade, que desisto de definir melhor. Creio até que insolência e cinismo são mal aplicados. Genoveva não se defendia de um erro ou de um perjúrio; não se defendia de nada; faltava-lhe o padrão moral das ações. O que dizia, em resumo, é que era melhor não ter mudado, dava-se bem com a afeição do Deolindo, a prova é que quis fugir com ele; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a razão era do mascate, e cumpria declará-lo. Que vos parece? O pobre marujo citava o juramento de despedida, como uma obrigação eterna, diante da qual consentira em não fugir e embarcar: “Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.” Se embarcou, foi porque ela lhe jurou isso. Com essas palavras é que andou, viajou, esperou e tornou; foram elas que lhe deram a força de viver. Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte...
— Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era verdade. Tanto era verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era verdade! Mas vieram outras coisas... Veio este moço e eu comecei a gostar dele...
— Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de mais ninguém ...
— Deixa disso, Deolindo. Então você só se lembrou de mim? Deixa de partes...
— A que horas volta José Diogo?
— Não volta hoje.
— Não?
— Não volta; está lá para os lados de Guaratiba com a caixa; deve voltar sexta-feira ou sábado... E por que é que você quer saber? Que mal lhe fez ele?
Pode ser que qualquer outra mulher tivesse igual palavra; poucas lhe dariam uma expressão tão cândida, não de propósito, mas involuntariamente. Vede que estamos aqui muito próximos da natureza. Que mal lhe fez ele? Que mal lhe fez esta pedra que caiu de cima? Qualquer mestre de física lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo declarou, com um gesto de desespero, que queria matá-lo. Genoveva olhou para ele com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como ele lhe falasse de ingratidão e perjúrio, não pôde disfarçar o pasmo. Que perjúrio? Que ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou era verdade. Nossa Senhora, que ali estava, em cima da cômoda, sabia se era verdade ou não. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E ele que tanto enchia a boca de fidelidade, tinha-se lembrado dela por onde andou?
A resposta dele foi meter a mão no bolso e tirar o pacote que lhe trazia. Ela abriu-o, aventou as bugigangas, uma por uma, e por fim deu com os brincos. Não eram nem poderiam ser ricos; eram mesmo de mau gosto, mas faziam uma vista de todos os diabos. Genoveva pegou deles, contente, deslumbrada, mirou-os por um lado e outro, perto e longe dos olhos, e afinal enfiou-os nas orelhas; depois foi ao espelho de pataca, suspenso na parede, entre a janela e a rótula, para ver o efeito que lhe faziam. Recuou, aproximou-se, voltou a cabeça da direita para a esquerda e da esquerda para a direita.
— Sim, senhor, muito bonito, disse ela, fazendo uma grande mesura de agradecimento. Onde é que comprou?
Creio que ele não respondeu nada, nem teria tempo para isso, porque ela disparou mais duas ou três perguntas, uma atrás da outra, tão confusa estava de receber um mimo a troco de um esquecimento. Confusão de cinco ou quatro minutos; pode ser que dois. Não tardou que tirasse os brincos, e os contemplasse e pusesse na caixinha em cima da mesa redonda que estava no meio da sala. Ele pela sua parte começou a crer que, assim como a perdeu, estando ausente, assim o outro, ausente, podia também perdê-la; e, provavelmente, ela não lhe jurara nada.
— Brincando, brincando, é noite, disse Genoveva.
Com efeito, a noite ia caindo rapidamente. Já não podiam ver o Hospital dos Lázaros e mal distinguiam a ilha dos Melões; as mesmas lanchas e canoas, postas em seco, defronte da casa, confundiam-se com a terra e o lodo da praia. Genoveva acendeu uma vela. Depois foi sentar-se na soleira da porta e pediu-lhe que contasse alguma coisa das terras por onde andara. Deolindo recusou a princípio; disse que se ia embora, levantou-se e deu alguns passos na sala. Mas o demônio da esperança mordia e babujava o coração do pobre-diabo, e ele voltou a sentar-se, para dizer duas ou três anedotas de bordo. Genoveva escutava com atenção. Interrompidos por uma mulher da vizinhança, que ali veio, Genoveva fê-la sentar-se também para ouvir “as bonitas histórias que o sr. Deolindo estava contando”. Não houve outra apresentação. A grande dama que prolonga a vigília para concluir a leitura de um livro ou de um capítulo, não vive mais intimamente a vida dos personagens do que a antiga amante do marujo vivia as cenas que ele ia contando, tão livremente interessada e presa, como se entre ambos não houvesse mais que uma narração de episódios. Que importa à grande dama o autor do livro? Que importava a esta rapariga o contador dos episódios?
A esperança, entretanto, começava a desampará-lo e ele levantou-se definitivamente para sair. Genoveva não quis deixá-lo sair antes que a amiga visse os brincos, e foi mostrar-lhos com grandes encarecimentos. A outra ficou encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em França e pediu a Genoveva que os pusesse.
— Realmente, são muito bonitos.
Quero crer que o próprio marujo concordou com essa opinião. Gostou de os ver, achou que pareciam feitos para ela e, durante alguns segundos, saboreou o prazer exclusivo e superfino de haver dado um bom presente; mas foram só alguns segundos.
Como ele se despedisse, Genoveva acompanhou-o até à porta para lhe agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente dizer-lhe algumas coisas meigas e inúteis. A amiga, que deixara ficar na sala, apenas lhe ouviu esta palavra: “Deixa disso, Deolindo”; e esta outra do marinheiro: “Você verá”. Não pôde ouvir o resto, que não passou de um sussurro.
Deolindo seguiu, praia fora, cabisbaixo e lento, não já o rapaz impetuoso da tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra metáfora de marujo, como um homem “que vai do meio caminho para terra”. Genoveva entrou logo depois, alegre e barulhenta. Contou à outra a anedota dos seus amores marítimos, gabou muito o gênio do Deolindo e os seus bonitos modos; a amiga declarou achá-lo grandemente simpático.
— Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que ele me disse agora?
— Que foi?
— Que vai matar-se.
— Jesus!
— Qual o quê! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as coisas, mas não faz. Você verá que não se mata. Coitado, são ciúmes. Mas os brincos são muito engraçados.
— Eu aqui ainda não vi destes.
— Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os à luz. Depois guardou-os e convidou a outra a coser. — Vamos coser um bocadinho, quero acabar o meu corpinho azul...
A verdade é que o marinheiro não se matou. No dia seguinte, alguns dos companheiros bateram-lhe no ombro, cumprimentando-o pela noite de almirante, e pediram-lhe notícias de Genoveva, se estava mais bonita, se chorara muito na ausência, etc. Ele respondia a tudo com um sorriso satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite. Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.

Machado de Assis
Obtido em "http://pt.wikisource.org/wiki/Noite_de_almirante"

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Consolo

-Estou sofrendo.

- Entra e senta. Quer um copo d'água?

Um fim de tarde de domingo é propício a desabafos. Se a chuva chora além da vidraça, tudo parece muito natural.

-Estou te atrapalhando?

- Não, acabei de almoçar. Só tenho que arrumar umas coisinhas aqui em casa.

-Quer ajuda?

-Eu não, mas você quer. Conta o que aconteceu.

E Cecília dedicou longos minutos e enérgicas palavras para contar àquela amiga o que lhe doía o coração.

-Você quer chocolates?

-Ai, eu estou precisando de chocolate!

Em 95% dos casos, os desabafos de uma amiga a outra se trata de "problemas" com homens. Em 99% deles, o primeiro consolo da mulher é uma caixa de bombons.

Os problemas podem ser reais ou não, duradouros ou curtos, mas são sempre - sempre- muito graves.

Maria sempre ouve. Maria dá conselhos. Maria sabe como lidar com amigas sofredoras.

Ao cabo de meia hora de lamentos, xingamentos e prelúdios de lágrimas, Cecília se calou.

Maria, em seus vinte e poucos anos, adquiriu desde o início da adolescência experiência com relacionamentos. Foi de poucos: Algumas paixões, grandes e menores desilusões, um único namoro já terminado, mas muita observação e ouvidos cheios de lamentos alheios.

Quando não se tem experiência com homens, todo silêncio parece ser o fim do mundo. O caso é que os problemas, em quase todas as vezes, são bem menores que o olhar feminino se permite enxergar.

As hiperbólicas mulheres adoram queixar-se de homens com as amigas, com o cachorro, com o vento. E queixam-se enchendo a boca, donas da razão, como toda mulher que se preze.

- Acabe de beber a água e vá até a cozinha. Vou terminar de lavar a louça.

E enquanto passava a esponja em movimentos circulares para ensaboar o único prato sujo, pensava como continuaria a conversa com Cecília. Ao ouvir seus passos entrando na cozinha:

- Deixe o chocolate em cima da mesa. Ele não está te fazendo sofrer.

-Como não, Maria???? (E enfiou mais um bombom na boca) Você não ouviu o que eu acabei de te contar?!

-Ouvi, e é por isso que digo: O Lucas não está te fazendo sofrer.

- Mas eu estou sofrendo, Maria! Tá doendo muito!

-Ah, nisso eu acredito. Acredito que esteja doendo.

- O que ele fez foi errado, não foi? Ele não tinha o direito de fazer isso comigo. Eu não entendo por que ele faz isso comigo. Ele sabe que me machuca. Ele diz que se importa, mas então por que ele me faz sofrer?

-Ele não te faz sofrer.

-Mas estou sofrendo.

-Sofre porque quer.

-Eu quero?!?! Você acha que eu gosto de sofrer?! Que eu gosto de chorar a toda vez que penso nele?! Que gosto de ser ignorada por ele?

- Acho, sim. Se você não gostasse, não entraria a toda hora no orkut dele pra procurar fotos e fatos que comprovam o que você quer acreditar que não está acontecendo.

E Cecília franziu a testa como chupasse limão.

-E se não gostasse de sofrer, não ficaria ligando pra ele incessantemente, sem obter resposta.

-Mas ele pediu pra eu ligar...

-Se ele quisesse falar contigo, atenderia uma das vinte ligações que você fez.

-Mas e se o celular dele estiver com problema? Ele vai pensar que eu não liguei!

E Maria valeu-se de indelicadeza pra convencer a tristonha Ceci:

-Se ele quisesse falar contigo, te ligaria. Pára de ser besta.

E os olhos verdes de Cecília se apagaram e miraram o chão.

As mulheres escondem a razão por detrás da esperança quando têm o coracão ferido.

- O que eu faço?

- Espera a dor ir embora.

-Não consigo! Essa dor não me deixa nunca.

-A dor é dor. Pode vir de fora, mas passa. A dor curtida é sofrimento. A dor dói em quem sente. Só sofre quem quer.

E Maria embalou Cecília em um abraço forte. Esta, em lágrimas, mastigava outro bombom.

Sonho


-Vem, Clarinha, vem tomar leite!
- Não, mãe. Quero tomar chuva!
E saiu pra rua descalçando as chinelas. Vestia um vestidinho verde pueril, e o sorriso que abriu ao sentir em sua pele moça as primeiras gotas daquela chuva de verão tinha todo o colorido do céu da alvorada.
Pisa a poça, chuta a bola, pula, corre, rodopia no ar.
Bate na casa do vizinho:
Vem, Pedrinho, vem dançar!
E o menino tímido e assustado ficou a olhar. Debaixo do guarda-chuva, encostado no portão, observava deslumbrado o pano verde grudar nas costas morenas de Clarinha.
- Você não está com frio?
- O coração tá quente, Pedrinho. Vem, toma minha mão.
- Mas eu não posso me molhar.
- Pode sim, querendo.
E Clarinha jogava com as mãos as gotas de chuva de volta pro céu.
- A chuva cai pra baixo. Não adianta empurrar pra cima.
- Não quero que pare de chover.
- Nunca?
- Só quando o sol quiser voltar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Antes de partir

Recentemente assisti ao filme "Antes de partir ". Nele, as personagens vividas por Jack Nicholson e Morgan Freeman sao pacientes terminais que, ao saber de sua condicao, resolvem aproveitar o tempo que lhes resta fazendo coisas que sempre quiseram fazer.
Inspirada pelo filme, resolvi fazer uma lista de 7 coisas (simplesmente porque gosto do número) que pretendo fazer antes de partir.
1- Saltar de pára-quedas.
Devo realizar ainda no primeiro semestre desse ano.
2- Fazer uma tatuagem.
Há algum tempo penso em fazer uma, mas ainda nao me tinha aparecido a idéia que me parecesse realmente ideal. Pensei em tatuar a palavra alema "Lebenslustig", que, numa traducao simplista pode significar "apaixonada pela vida", o que, de fato, sou (e que também está no significado do meu nome).
Há dois dias, no entanto, me surgiu por acaso outra idéia, e agora pareco mais inclinada a tatuar a segunda. Trata-se de um cisne na parte superior direita das minhas costas. Ainda vou fazer algumas pesquisas pra definir o desenho, mas coloco aqui o link de um que gostei.
http://palehecate.deviantart.com/art/Swan-Tattoo-5543413
3-Compor a letra de uma bossa
4- Ser fluente em 6 linguas estrangeiras
O único sonho que tenho desde crianca é ser poliglota. Tenho estudado pra isso. Por enquanto sei/aprendo ingles, alemao e mandarim. Pretendo ainda aprender frances, espanhol e russo ou árabe (se a vida nao me levar a caminhos que possam me fazer interessas por outra)
5- Fazer um mochilao pela América Latina com algumas amigas
6- Aprender a dancar
7- Publicar ao menos um livro

10 coisas que toda mulher precisa experimentar

Recebi por e-mail um artigo que me chamou a atencao. De vez em quando recebo e-mails de canais femininos, e alguns deles (a menor parte, talvez) chegam a despertar meu interesse.
O e-mail que li essa manha chamou minha atencao pelo titulo: 10 coisas que toda mulher precisa experimentar.
Deixo o link no final do post, mas listo abaixo as experiencias citadas, e meus comentários:
(OBS: notarao a ausencia de tis, cedilhas, e alguns acentos. Nao é burrice, é preguica, porque o teclado que estou usando nao é brasileiro e agora estou com preguica e sem tempo pra acentuar o texto todo. espero que entendam.)

1. Fazer uma viagem sozinha.
A psicóloga consultada para a elaboracao da lista, diz que é importante que a mulher viva a experiencia de nao depender de ninguem e de tomar todas as decisoes sozinha.
Concordo plenamente com a idéia. Já tive a oportunidade de fazer algumas viagens sozinha, ainda que curtas, e é muito bom poder acordar na hora que voce quer, ir a lugares que realmente te interessam, e, de quebra, conhecer viajantes que estao no mesmo barco que voce. Quando se viaja em grupo, tende-se a ficar mais fechado a oportunidade de fazer novos contatos.
Primeiro ponto: realizadissimo

2. Ter uma deliciosa noite de sexo sem compromisso.
Concordo. Depois que nós, meninas recatadas, deixamos de lado os tabus e preconceitos, nos damos conta de que é, de fato, uma ótima experiencia. Atente a questao "deliciosa", caso contrário, pode nao valer a pena. Ninguém quer acordar na manha seguinte com o pensamento "Por que que eu dei pra esse cara?" Portanto, é bom nao sair por ai dando pra qualquer um, pagando de liberal. Seletividade é a chave do negócio.
Segundo ponto: Muito bem realizado

3. Colocar suas finanças em dia.
Importantissimo. Se gostamos de gastar, é bom saber administrar pra PODER gastar (sem depender do papai ou do companheiro).
Terceiro ponto: Colocar em prática

4. Aprender a cozinhar um prato exótico.
No texto, entende-se por exótico um prato distante do seu dia a dia. Gosto muito de cozinhar e cozinho bastante. Fiquei um tempo pensando se eu já cozinhei um prato exótico, e o mais perto que cheguei disso foi meus tomates recheados com carne moida e etc (que aprendi com uma tcheca), mas nao é nada exótico. É tomate, temperos, queijo e carne moida!
Quarto ponto: Pesquisar pratos EFETIVAMENTE EXÓTICOS e realizar. Oferecer jantar para amigos.

5. Experimentar novidades na cama.
Falar que sou geminana deixa tudo claro?
Quinto ponto: Nasci pra isso :P

6. Despertar a artista em você.
Tenho um pouco de medo dessa palavra "artista", porque lembro-me que na Casa dos Artistas nao tinha artista nenhum. De qualquer maneira, nos últimos tempos tenho me dedicado mais ao meu trabalho vocal, e voltei a escrever.
Sexto ponto: Continuar as aulas de violao e levar o blog adiante.

7. Decretar um dia da beleza. Um dia em qual periodo de tempo?
Costumo reservar um dia da semana pra isso. A fase punk rock da minha adolescencia me serviu pra treinar minha manicure. Porque eu só pintava minhas unhas de preto, tinha que refaze-las quase que diariamente, e nasceu um novo talento. Banhos de creme, exfoliacao corporal e facial, e depilacao: To muito bem aparelhada em casa, mas a idéia de terapias alternativas me agrada.
Sétimo ponto: Economizar pra ir a um centro de estética.

8. Planejar seu futuro profissional.
Já planejei meu futuro profissional: Tradutora, escritora e professora.
Alguém dise que tenho que ser uma coisa só o resto da vida? Se disse, será ignorado. Nao tenho 23 anos e tenho interesses vários: Fazer legendagem e dublagem, cantar em bares, trabalhar com eventos...
Mas o que eu quero mesmo é ser a chefe de mim mesma, nao ter de mandar em ninguém, poder trabalhar em qualquer lugar e ganhar dinheiro bastante pra viver minha vida (e aproveita-la!).
Oitavo ponto: Levar do planejamento a realidade.

9. Descobrir uma nova atividade física.
Recentemente descobri os beneficios da corrida e esta tem sido minha atividade fisica de maior interesse. Tenho como meta participar de maratonas daqui pra frente.
Fazia um tempo que andava parada com atividades fisicas. Já pratiquei várias: Volei, handball, canoagem, jazz (que larguei depois de me embananar no contratempo), lambaeróbica (quase concomitante com a fase punk, olha que coisa!), ginastica localizada, circuito de fitness, musculacao (que hoje pratico)...
Ponto 9: Manter a corrida e a musculacao e procurar aula de danca. Talvez tope o convite do Bruno e entre na aula de salsa com ele. Ou me junto a minha irma e comecamos danca de salao. (to querendo aprender a dancar).

10. Ser mais zen. Sou bem zen. Procuro fazer do meu apartamento, e em especial, meu quarto, locais agradáveis, pratico respiracao consciente e harmonizo a casa com incenso.
Ponto dez: Ir ao templo budista com o Bruno e com a Vivi (prometi ano passado)

http://www.minhavida.com.br/materias/bemestar/10+coisas+que+toda+mulher+precisa+experimentar.mv?utm_source=news_mv_saude_f&utm_medium=09_01_16&utm_term=top5&utm_content=materia_dt&utm_campaign=mulher_experi

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Janta


Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade

Eu quis te convencer mas chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir
Pode ser a eternidade má
Caminho em frente pra sentir saudade

Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks that i'm sad
I'll take a ride in melodies and bees and birds
Will hear my words
Will be both us and you and them together

Cause i can forget about myself, trying to be everybody else
I feel allright that we can go away
And please my day
I let you stay with me if you surrender

(Marcelo Camelo)

Cabe o não dá

A obrigação de sentir culpa me traz ao papel. Não há desculpas, haveria perdão se eu te contasse. Teu coração, sempre aberto, perdoaria tudo pra não me perder.
Nunca te faltei com lealdade. Acordo mútuo, nos entendemos, nunca te trai.
Disse que bocas
não passam de bocas e os toques que só despertam prazer não são perigo. Por isso não temiamos.
Eu
não temia me interessar por um novo alguém. Teu gosto me bastava, a distância alimentava nossos sonhos e viviamos em paz, eu e você.
Voc
ê não tinha medo, pois eu te transparecia por olhares e declarações a intacta segurança que eu tinha em meu amor. Vivíamos em paz, nós dois.
Meu amor era tal, que os beijos que desperdicei - com consentimento teu- n
ão ficaram no coração nem na memória, e foram de tal insignificância, que não os eternizei no papel.

Mas o beijo que n
ão dei...
Uma tarde qualquer quis que meus ouvidos ouvissem a música que me trouxe a idéia dele. Eu pensava t
ê-lo feito em mim apenas memória, mas foi mais...
Dentro de mim eu colocara uma caixinha, e entre as paredes revestidas de veludo negro, guardei-o adormecido.
Mas a música tomou conta de mim, a caixinha se abriu, e aos poucos ele foi transbordando dentro de mim. Ent
ão veio impulso, quereres, sorrisos, palavras, e tudo que antes vinha com a idéia dele.
E o procurei.
Quis esquecer, n
ão querendo. Devia deletar, apagar, mas algo urgia dentro de mim, e então procurei, e insisti, e cansei, e revi.

Revi aqueles olhos negros de segredo. Deleitei-me no corpo e n
ão deletei o corpo dele de mim.
Depois senti urg
ência, e pra tentar retê-lo, vesti-me na nudez que me protegia e fui atrás.

Lutei contra verdades, embriaguei-me de enganos, e num ato de desespero para esquec
ê-lo, agarrei-me no triz que sobrava de você em mim. Mas era mentira.
Tudo já havia mudado. Meus sonhos antigos voltaram a me chamar. Os teus sonhos coloridos se me tornaram desconfortáveis. Busquei pretextos e motivos pra ficar, mas só consegui chorar.
Chorei meu choro mais sincero, mas dentro de mim, eu n
ão sofria.
Sofria por voc
ê. Por pisotear teus castelos de areia e apagar tua luz.
Mas que culpa tenho eu, meu Deus?! Meus olhos já nao brilhavam mais por ti! A idéia de voc
ê já não era só afago, e eu te feria com olhares frios e com a ausência de palavras doces.
Nao queria ser pra voc
ê o que eu não sou. Eu só quero teu bem. Por isso do tempo. Pra te poupar de injúrias e fúrias que não eram contra você.

Contra mim... Eu quis lutar contra algo que me nasceu sem que eu quisesse. o plantei coisa alguma.
Me desculpe por n
ão sentir culpa.
Me diz, que culpa tem a chuva de chover!? Que culpa tenho eu de n
ão mais te querer?
Não culpe a ele, nem a mim. Nós sabemos que ele não é motivo, foi estopim.

N
ão pude mais me enganar. 15 horas no céu para te encontrar, e meu pensamento longe de ti. Todas minhas palavras eram pra buscá-lo em mim.
Cheguei, e percebi que nos teus olhos n
ão procurava você.
E pra n
ão trair a mim mesma, assumi os fatos. Abriguei a chuva, e pra me manter leal a ti, com todas as letras duras você ouviu sair desses lábios que não são mais teus:
Acabou.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Boa noite

Meu avião decola neste instante, e o sol se despede sem pressa.
Vejo o mar pela janela, e tudo isso é voc
ê.
Então já estou flutuando sobre as nuvens, e elas pedem sensatez. Mas lá no fundo rosa-azulado do despertar da noite o desejo me acena. Agora é calmo.
Fantasio você adormecendo envolto no meu cheiro. Minha cabeça descansa no leito morno remexido que ansiava por teu corpo.
E o corpo que eu pensava ser meu, basta ouvir teu respirar, transfigura-se a teu dispor.
Você nos meus olhos causa estrelas que te consolam à noite. Minhas pernas se estendem como longos caminhos que te desorientam. Toda pele que cobre meu corpo se aquece macia para ser tua cama.
Meu corpo é feito teu.
Meus lábios vermelhos e fartos apresentam-se banquete para te satisfazer.
Os lençóis que tens a cobrir-te são meus braços leves a te fazer caricias.
Depois do corpo envolto por toda parte de mim, toma meus cabelos, que já tão ferozmente te abrigaram.
Dorme. Meu sorriso é boa noite.
Vou agora eu adormecer com a imagem de você repousando sua cabeça exausta neste travesseiro cacheado, que é teu.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Nua

A noite volta e acende meus desejos, que durante o dia cochilam um sono leve, vulneráveis a despertar se qualquer som resmunga teu nome, ou se a brisa sopra alguma coisa que me traz você.
A escuridão se faz berço aconchegante das minhas fantasias, e elas adotam gestos e cores e cheiros e sons e gostos pra se tornaram mais reais.
A fantasia, filha legitima do desejo, nutre-me de prazer. O desejo é uma intensa idéia - boa, agradável- que por vezes se esvai por falta de fôlego de quem deseja. Quando não é fantasiado, está quase fadado a não se tornar realidade. Minha fantasia é antecipação da realidade que desejo viver.
Pois o dia se põe e agora descrevo -por não saber desenhar-o que se acendeu com o anunciar da noite. Agora o mesmo céu, ainda que lilás, grita teu nome em mim.
A primeira imagem que me vem - como sempre- é o teu sorriso.
Fechando os olhos a lembrar vem a força quase tão intensa quanto à do verdadeiro. Penetro meu sorriso puro no teu e recebo teus olhos tão negros no bem-vir dos meus, que te refletem em min.
Tua risada liberta pelas cócegas me alegra, e mesmo aqui, tão longe de ti, sinto minha face se transfigurar em um lento sorriso de satisfação.
Tua voz séria engatinha até meus ouvidos e suas palavras preguiçosas são pra mim canção de ninar.
Tenho meu corpo acalentado por seu largo abraço e aqui no papel eu me permito te contemplar com meus olhos calmos que não te são bem conhecidos.
Aqui não receio te olhar com a ternura que transborda de mim e que sufoco quando você me tem.
Nessas linhas me ouço falando com liberdade, e usando até palavras comportadas que têm meu gosto. Dispo-me por completo da nudez que reveste tudo isso e que só aqui posso expor.
Aqui - e só aqui- fico nua frente a ti.
Os desejos vários que eu tinha aquietado dentro de mim foram se acumulando, se uniram, e hoje conspiram contra meu engano de não mais te querer.
Voce veio mansinho, e eu quis que ficasse. Sem que voce quisesse, coloquei-te em mim, e pra te obedecer, ao me encontrar no limiar entre paixão e indiferença fingida, quis te deletar. Mas o balanço do meu corpo me derrubou. Bem sabia eu onde estava caindo.
Percebi sua vastidão, mas não pude prever as tormentas que me poderiam atingir, embora já soubesse que existiam.
Eis o momento identico 'aquele da criança que pela primeira vez ve o mar. Deslumbramento, curiosidade, medo...
Não acredito que a criança tenha medo de sofrer.
Sofrer tememos nós, que já antes sofremos.
Nós, que já desabamos ao ouvir soar o corriqueiro "não" dos lábios mais castos já tocados.
Nós, que sentimos a dor de mil punhais penetrar na carne com os contornos de "não te quero mais", cujas cicatrizes ainda machucam.
Todos nós. voce e eu, que perdemos a disputa pelo brilho do olhar de alguém que significou mais que boca e pernas.
Eu, que me vi incapaz de amanhecer encantamento nos olhos angelicais que já foram meu ar.
Eu, mulher seca, crua, insossa, inencantadora, sei o que é sofrer.
Eu já conhecia, portanto, a inconveniencia que é ter o sofrimento a latejar a alma.
Ainda assim, quis me jogar. Fiz do teu sorriso meu mar, e sua imensidão branca me intimou a mergulhar. Mesmo que voce nao soubesse. Mesmo que voce nao quisesse.
Entao colocaste aviso 'a beira-mar.

...

Dia ensolarado na praia, calor desértico, e 'a frente, um irresitivel mar azul. Qualquer aviso me é invisivel.

(Mergulhei no seu mar, e este tem sido o mergulho mais deliciosamente longo a que já me arrisquei).

Pouso no amanhecer de Roma

O sol se boceja dentro da escuridão da noite.
Teu olhar tem esse brilho que se divide e forma a vasta constelação que salvou esta noite do breu.
Na quieta escuridão, goteja um azul que se deita preguiçoso no horizonte, e se indefine imensamente no dilema de ser ou nao azul, até que o sol se impõe tímido e esplendoroso sobre a manh
ã
fria que testemunho nascer.